“Assim, em tudo, façam
aos outros o que vocês querem que lhes façam aos outros o que vocês querem que
eles lhes façam; pois está é a Lei e os Profetas” – Mt 7.12
A
Palavra é praticamente uma proposta de contramão existencial. Ou melhor, a
existência se desconverteu de seu fluxo natural,
sendo, portanto, acrítica em relação a si mesmo conforme o Evangelho que diz
que assim é “estar nas trevas e andar nas trevas; não se sabe para onde vai,
porque as trevas o cegaram”.
A
sociedade moderna-tecnológica, de modo geral, segue hasteando sua bandeira
consumista e hedonista, posto que por essas vias, se definem o realizar.
Entretanto, quem assim procede nem se dá conta de que, todavia, por estas vias,
não se chega ao seu ideal: felicidade. Pois, ela, a felicidade, não se vende
pela via da paranoia moderna. A nobreza com que ela é não se reduz a essa baixa
escala. Em sua nobreza, não se dispõe a poucos ou alguma elite ou grupo. Sua
nobreza é caracterizada por outras vias pelas quais ela se dá e, na verdade,
ela não se dá, antes, ela é cultivada no chão do ser e em cada ser humano.
Portanto, não a encontramos fora de nós.
A
Palavra, porém, em sua liberdade e graça, aponta esse caminho, aliás, em suma,
ela simplifica todo o universo de sua grandeza. Ela diz que o cumprimento da
Lei e dos Profetas, ou seja, a compreensão de tudo o que Palavra pormenoriza e
explica repetidas vezes é que toda a realização humana se dá quando me proponho,
em tudo, realizar o outro. Fazer aos outros o que queremos que se nos façam.
Duro é esse discurso. E por quê? Porque estamos condicionados a outras coisas:
sermos servidos, sermos reconhecidos, sermos admirados, sermos lisonjeados,
sermos recompensados. Não é no simples serviço e bem do outro, mas nos serviço
a mim e o bem a mim. Posso até fazer pelo outro, mas isso tem que ter mão
dupla. E, num contexto antropocêntrico como o nosso isso é como encontrar grão
de arroz perdido na areia do mar.
O
convite da Palavra é sermos como o Pai. Olhe pra Ele. Veja como ele trata a
humanidade. O sol e chuva são para todos, o pão chega a mesa de todos (embora
muitos são privados da abundancia em função da desigualdade social).
Então, me
realizo não quando é feito por mim, mas quando faço pelo outro, esta é a Lei e
os profetas.
“Assim”, quer
dizer da mesma forma, ou seja, o Pai dá boas coisas aos seus filhos que embora
sejam maus, assim e da mesma forma, devo fazer, ainda que o outro não o faça
por mim. Então, o meu fazer não está condicionado ao merecimento do outro, mas
o simplesmente fazer pela simples razão de ser bom, posto que, ser bom, deva
ser a forma como eu vivo. Esta é a Lei e os profetas. E faço porque, assim
sendo, realizo o cumprimento de toda a exigência da Lei e dos profetas: SER BOM.
E, bondade
incondicional, é aquela que faz sem considerar merecimentos, isso nada mais é
do que a manifestação do amor. Pois, assim se lê no Evangelho “de que o amor
não pratica o mal contra o PRÓXIMO”. Portanto, o AMOR É O CUMPRIMENTO da Lei. A
Lei com todas as suas santas revindicações nada mais é do que a bondade-amor
nutrida e concreta no outro em quem assim é feito. Logo, “não adulterarás”, não
é o não simplesmente olhar sensual com que olho o outro (a), mas, inclusive,
ser bom no cumprimento de todos os meus deveres-serviços conjugais. Posto que,
se meu olhar torna-se um olhar sensual, vejo que não manifesto bondade-amor
para com quem estou comprometido em afeto e sexualidade intensa e fiel.
Possivelmente, sou daquele que não está fazendo o que gostaria que se estivesse
sendo feito a mim. Na passividade estou e nela fico, esquecendo que, realizo-me
no fazer, embora não o seja feito a mim.
Esse exemplo é
citado, tendo vista que, ele como tantos outros casos os são citados antes
desse texto no qual estamos refletindo. Assim, se fala daquele que assassina
através das ofensas e do desprezo, sendo que, na verdade, devo bendizer e
pronunciar em meus lábios somente o que for útil para edificar (Mt 5.21-26); dos
que se divorciam sem razões legais expondo o conjugue as vulnerabilidades da
promiscuidade (Mt 5.27-30), visto que a preservação do casamento preserva o
outro (a); dos que não se garantem em sua palavra e que apelam para coisas
sagradas para se garantir (Mt 5.33-36), tendo em visto que, a construção do
caráter e da confiança deve proceder no simples sim, sim e não não; dos que se
pretendem pagar com a mesma moeda, sendo que a proposta do evangelho é entregar
a cara pra apanhar (Mt 5.38-42), dos que alimentam a inimizade e a reafirmam,
posto que segundo Jesus deve-se perdoar a tudo e a todos e ainda dispor-se ser
o próximo dele em sua necessidade (Mt 5.43-48); dos que se autopromovem e se
alardeiam naquilo que nada mais é do que um dever do bondoso-amoroso humano,
esquecendo-se que, aqueles que assim procedem já receberam a sua recompensa que
não passará de aplausos e lisonjas de homens (Mt 6.1-4); dos que procuram
impressionar em sua vazia espiritualidade que não passa mais do que uma
teatralização daquilo que, quando é feito com verdade, é feito de portas
fechadas (Mt 6.5-8); dos que tem aparência de piedade, mas negam o poder (Mt
6.16-18); dos que não compreenderam o objetivo da riqueza que quando adquirida
deve ser repartida no socorro do que não foi favorecido, mas que será por este,
sendo este o verdadeiro ato de acumular riqueza Mt 6.19-24; dos que em sua
ansiedade, vivem num desconforto da desconfiança, desprezando assim, a ativa
presença dAquele que está comprometido com a irracionalidade confiança dos pássaros
(Mt 6.25-34); daquele que ao invés de se enxergar, quer enxergar o outro, sendo
que dessa forma nunca enxergará o alheio, sendo que para se ver o outro preciso
antes ver a mim mesmo, pois, vendo a mim verei o outro como eu, alguém que é
digno de misericórdia e acolhimento e não de pedras (Mt 7.1-5); dos que não
percebem que a bondade de Deus não é comprada por supostos merecimentos, mas
doada livremente a todos, porque Ele é bom e fará, obviamente e graças a Ele
por isso, não segundo pensamos, mas segundo o que lhe aprouver, de modo que,
isso será “as boas coisas” que Ele dá aos que lhe pedem (Mt 7.7-11)
Logo, fazer ao
outro o que quero que se faça por mim, é portanto, ser bom. Visto que “somos criação de Deus realizada em Cristo
para a prática de BOAS OBRAS, as quais Deus preparou antes para nós as
praticarmos” – Ef 2.10. Por essa razão é preciso se desconverter do
desconvertido fluxo deste mundo e assim vivermos em novidade de vida como que
numa via de contramão, mas que vai para
o rumo certo.
Escrevendo
pelas simples razão de promover o bem a alguém,
Wellington Miguel
Discípulo
Esmeraldas, 12 de Julho de 2013
05:41h

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