sexta-feira, 12 de julho de 2013

A REALIZAÇÃO NA CONTRAMÃO EXISTÊNCIAL


 

“Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que lhes façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois está é a Lei e os Profetas” – Mt 7.12

                A Palavra é praticamente uma proposta de contramão existencial. Ou melhor, a existência se desconverteu de seu fluxo natural, sendo, portanto, acrítica em relação a si mesmo conforme o Evangelho que diz que assim é “estar nas trevas e andar nas trevas; não se sabe para onde vai, porque as trevas o cegaram”.

                A sociedade moderna-tecnológica, de modo geral, segue hasteando sua bandeira consumista e hedonista, posto que por essas vias, se definem o realizar. Entretanto, quem assim procede nem se dá conta de que, todavia, por estas vias, não se chega ao seu ideal: felicidade. Pois, ela, a felicidade, não se vende pela via da paranoia moderna. A nobreza com que ela é não se reduz a essa baixa escala. Em sua nobreza, não se dispõe a poucos ou alguma elite ou grupo. Sua nobreza é caracterizada por outras vias pelas quais ela se dá e, na verdade, ela não se dá, antes, ela é cultivada no chão do ser e em cada ser humano. Portanto, não a encontramos fora de nós.

                A Palavra, porém, em sua liberdade e graça, aponta esse caminho, aliás, em suma, ela simplifica todo o universo de sua grandeza. Ela diz que o cumprimento da Lei e dos Profetas, ou seja, a compreensão de tudo o que Palavra pormenoriza e explica repetidas vezes é que toda a realização humana se dá quando me proponho, em tudo, realizar o outro. Fazer aos outros o que queremos que se nos façam. Duro é esse discurso. E por quê? Porque estamos condicionados a outras coisas: sermos servidos, sermos reconhecidos, sermos admirados, sermos lisonjeados, sermos recompensados. Não é no simples serviço e bem do outro, mas nos serviço a mim e o bem a mim. Posso até fazer pelo outro, mas isso tem que ter mão dupla. E, num contexto antropocêntrico como o nosso isso é como encontrar grão de arroz perdido na areia do mar.

                O convite da Palavra é sermos como o Pai. Olhe pra Ele. Veja como ele trata a humanidade. O sol e chuva são para todos, o pão chega a mesa de todos (embora muitos são privados da abundancia em função da desigualdade social). 

Então, me realizo não quando é feito por mim, mas quando faço pelo outro, esta é a Lei e os profetas.

“Assim”, quer dizer da mesma forma, ou seja, o Pai dá boas coisas aos seus filhos que embora sejam maus, assim e da mesma forma, devo fazer, ainda que o outro não o faça por mim. Então, o meu fazer não está condicionado ao merecimento do outro, mas o simplesmente fazer pela simples razão de ser bom, posto que, ser bom, deva ser a forma como eu vivo. Esta é a Lei e os profetas. E faço porque, assim sendo, realizo o cumprimento de toda a exigência da Lei e dos profetas: SER BOM.

E, bondade incondicional, é aquela que faz sem considerar merecimentos, isso nada mais é do que a manifestação do amor. Pois, assim se lê no Evangelho “de que o amor não pratica o mal contra o PRÓXIMO”. Portanto, o AMOR É O CUMPRIMENTO da Lei. A Lei com todas as suas santas revindicações nada mais é do que a bondade-amor nutrida e concreta no outro em quem assim é feito. Logo, “não adulterarás”, não é o não simplesmente olhar sensual com que olho o outro (a), mas, inclusive, ser bom no cumprimento de todos os meus deveres-serviços conjugais. Posto que, se meu olhar torna-se um olhar sensual, vejo que não manifesto bondade-amor para com quem estou comprometido em afeto e sexualidade intensa e fiel. Possivelmente, sou daquele que não está fazendo o que gostaria que se estivesse sendo feito a mim. Na passividade estou e nela fico, esquecendo que, realizo-me no fazer, embora não o seja feito a mim.

Esse exemplo é citado, tendo vista que, ele como tantos outros casos os são citados antes desse texto no qual estamos refletindo. Assim, se fala daquele que assassina através das ofensas e do desprezo, sendo que, na verdade, devo bendizer e pronunciar em meus lábios somente o que for útil para edificar (Mt 5.21-26); dos que se divorciam sem razões legais expondo o conjugue as vulnerabilidades da promiscuidade (Mt 5.27-30), visto que a preservação do casamento preserva o outro (a); dos que não se garantem em sua palavra e que apelam para coisas sagradas para se garantir (Mt 5.33-36), tendo em visto que, a construção do caráter e da confiança deve proceder no simples sim, sim e não não; dos que se pretendem pagar com a mesma moeda, sendo que a proposta do evangelho é entregar a cara pra apanhar (Mt 5.38-42), dos que alimentam a inimizade e a reafirmam, posto que segundo Jesus deve-se perdoar a tudo e a todos e ainda dispor-se ser o próximo dele em sua necessidade (Mt 5.43-48); dos que se autopromovem e se alardeiam naquilo que nada mais é do que um dever do bondoso-amoroso humano, esquecendo-se que, aqueles que assim procedem já receberam a sua recompensa que não passará de aplausos e lisonjas de homens (Mt 6.1-4); dos que procuram impressionar em sua vazia espiritualidade que não passa mais do que uma teatralização daquilo que, quando é feito com verdade, é feito de portas fechadas (Mt 6.5-8); dos que tem aparência de piedade, mas negam o poder (Mt 6.16-18); dos que não compreenderam o objetivo da riqueza que quando adquirida deve ser repartida no socorro do que não foi favorecido, mas que será por este, sendo este o verdadeiro ato de acumular riqueza Mt 6.19-24; dos que em sua ansiedade, vivem num desconforto da desconfiança, desprezando assim, a ativa presença dAquele que está comprometido com a irracionalidade confiança dos pássaros (Mt 6.25-34); daquele que ao invés de se enxergar, quer enxergar o outro, sendo que dessa forma nunca enxergará o alheio, sendo que para se ver o outro preciso antes ver a mim mesmo, pois, vendo a mim verei o outro como eu, alguém que é digno de misericórdia e acolhimento e não de pedras (Mt 7.1-5); dos que não percebem que a bondade de Deus não é comprada por supostos merecimentos, mas doada livremente a todos, porque Ele é bom e fará, obviamente e graças a Ele por isso, não segundo pensamos, mas segundo o que lhe aprouver, de modo que, isso será “as boas coisas” que Ele dá aos que lhe pedem (Mt 7.7-11)

Logo, fazer ao outro o que quero que se faça por mim, é portanto, ser bom. Visto que “somos criação de Deus realizada em Cristo para a prática de BOAS OBRAS, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos” – Ef 2.10. Por essa razão é preciso se desconverter do desconvertido fluxo deste mundo e assim vivermos em novidade de vida como que numa via de contramão,  mas que vai para o rumo certo.

Escrevendo pelas simples razão de promover o bem a alguém,


Wellington Miguel
Discípulo

Esmeraldas, 12 de Julho de 2013

05:41h

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