Páscoa...
A tradicional festa dos hebreus...
Sua razão e finalidade visam refletir e rememorizar o grande
fato e marco na trajetória daquela nação escolhida, não em razão de sua
grandeza, mesmo porque era a menor dentre todas as nações. Escolhida em razão
da livre vontade daquele que faz todas as coisas segundo o seu propósito.
Rememoriza o êxodo. A saída do Egito e de toda injustiça
opressiva desta nação. A saída de uma identidade descaracterizada em função de
uma tirania, de uma imposição. Tal era essa descaracterização que em
determinados momentos os próprios hebreus almejaram retornar àquele estado de
total nulidade. Tinham dificuldades com o novo, com a liberdade e com a
invisível pessoalidade de Deus, embora se mostrasse presente e providenciador.
Não era uma mera saída. Não era apenas sair. Havia um novo
rumo, uma nova busca, um novo viver. Canaã não era o objetivo máximo, assim
como determinada benção que esperamos de Deus não é o objetivo máximo dEle. Mas
saíam para o conhecer. O conhecer daquele que não conheciam, o Eu Sou. Aquele
que se permitiu ser notado por meras coisas inanimadas tais como tarbenáculo,
arca, altar, nuvens, fogo, água. Seu caminhar é realmente pedagógico e
paciente. Ele é aquele que desce ao nível dos homens, pois seu anseio é dar-se
a conhecer, não como um egocêntrico tirano da vida, mas porque nEle tudo
subsiste, sobretudo, a humanidade. NEle existimos, vivemos e nos movemos.
Conhecê-lo, nos faz conhecer a nós mesmo. Sem Ele não há identidade,
significado, caminho, sentido, vida. Nele tudo SUBSISTE.
E lá vai Ele. Virou uma nação de “pernas por ar”, em razão
de sua própria dureza, mas o fez voltando seu amoroso e fiel olhar para o seu
rebanho, no momento, meramente explorado.
Enfim, Ele orienta o seu líder: “celebrem a Páscoa!”. Ovelha
assada por inteira, sangue no umbrais, pães sem fermento e ervas amargas. Se os
filhos perguntassem deveriam responder que se tratava desta memorável história:
o êxodo (saída).
O Senhor disse: “façam essa festa perpetuamente” – Ex 12.17.
Anos depois, Jesus celebrando esta festa com seus íntimos,
quebrando protocolos e tradição, suspendeu um pão em sua mão e disse: “isso é o
meu corpo que é dado por vós, comei...”. Já era costume ouvir coisas estranhas
de Jesus, mas essa era diferente. Isto é o meu corpo dado por vós, comei. O que
é isso? Uma nova páscoa está começando. Uma nova “saída”. Mas essa não era
geográfica. É uma “saída”. É uma saída da descaracterização. Não de um Egito em
que estamos, mas do egito interior. Paulo disse que o Espírito de vida nos
libertou da lei do pecado e da morte, que antes operara nos membros da carne. O
Egito do qual somos livres é o Egito interior, são as paixões que subjugam a
consciência e a domina levando-a a fazer a sua vontade, e assim,
descaracterizando o ser. A Páscoa agora celebrada é a páscoa do “faço nova
todas as coisas”. Sim, há presença de sangue, não nos umbrais, mas no ser, de
forma que em nós não opera a morte, mas a vida. Há cordeiro, mas que agora é
Pão da vida. As ervas amargas, são dispensadas, pois a amargura não deve ser
lembrada, e sim avançar para o que está adiante. O fermento que deve ser
lançado fora, não é mais o pó químico, mas toda forma de maldade e malícia. O
que predomina é a verdade como Vida em Cristo e a sinceridade de vida no caminho.
Agora Páscoa, não é somente celebrar o que chamamos de Ceia
do Senhor, mas, páscoa é viver a Ceia. Viver o novo ser livre dentro de si. O ser
que caminha, não mais escravizado no Egito do pecado, o ser que mesmo lembrando-se
das mesas do Egito, não terá mais prazer nele e muito menos de lá voltar, pois,
sabe-se que lá, é meramente explorado e impedido de se descobrir como um ser
livre em Cristo, o Cordeiro que tira e continuamente tira o pecado do mundo. E
esse mundo é, senão, a preciosa humanidade, amada e querida por Ele. E, por que
não pensar no mundo criado e submetido a inutilidade? Sim, Ele há de redimir e
reconciliar todas as coisas pelo seu sangue e estabelecer paz. Estamos
voltando. Voltando para Ele, sendo como Ele na liberdade da graça da nova
Páscoa que adentra nosso ser e faz festa.
Feliz páscoa! A páscoa da vida, do significado, da bondade,
do amor, do novo e do retorno.
Naquele que se importou com nossa liberdade e identidade.
Wellington Miguel
Esmeraldas/MG