“Se alguém quiser
acompanhar-me, negue-se a si mesmo...” – Mt 16.24
O si mesmo é algo que sou que
nunca deveria ter sido.
O si mesmo é algo que tenho sido
e não o que devo ser.
O si mesmo é tudo aquilo que
tenho sido e que é contrário ao que tenho que ser.
O si mesmo é alguém que não se
enxerga como aquele alienado fariseu de Lc 18.11,12 que diz: “Deus eu te agradeço porque não sou como os
outros homens...”. O si mesmo, além de não se enxergar, ver no outro aquilo
que ele é em pior estado. É aquele que ensina os outros, mas não ensina a si
mesmo.
O si mesmo é tão confuso que ele
chega a dizer “um dia eu vou ser alguém”. Assim diz, porque o seu si mesmo é
formado a partir de das formas deste mundo. O alguém que ele quer ser é
determinado pelos ditames do seu tempo.
O si mesmo é uma paixão, é algo
que toma e domina a consciência e anula aquilo que devia ser dizendo que devo
ser aquilo que eu não deveria ser.
O si mesmo é tão embaraçoso que é
impossível seguir o caminho do discipulado se ele não for abandonado. Portanto,
este é o primeiro critério para continuar na caminhada da Graça.
Negar-se o si mesmo é negar uma
alienação, uma forma, a forma deste mundo com tudo aquilo que ele chama de
“valor”, é negar o engano tido por verdade, por status, por vitória, por esse
tal “de um dia ser alguém”. Negar-se a sim mesmo não pode está reduzido ao
negar determinados pecados e vontades, mas negar uma filosofia diabólica
construída para determinar que tais práticas (pecaminosas) são um exercício da
liberdade, uma filosofia diabólica que defende o relativismo, a fragmentação da
verdade, que defende sucesso a partir do que tenho, que anula o ser, que
negocia a solidariedade e a partilha, que cultiva corações pretensiosos, que
prenuncia o livre arbítrio, mas escraviza consciências. Negar o si mesmo é
nadar correnteza acima, é caminhar na contramão deste mundo convergido para si.
Negar-se a si mesmo, é trilhar um
caminho em busca da descoberta do “eu”, o que devo ser que não seja o
esquizofrênico e paranóico “si mesmo”.
Cansados no caminho, um suave
convite nos é feito: “vinde a mim todos os que estais cansados e eu vos
aliviarei, tomai o meu jugo e aprendei de mim...”. Aprendei o “quem devem ser”.
Anelamos pela felicidade, mas a buscamos pelo lado de fora, mas como ela não
está lá, fadigamos na busca. Daí a necessidade de dEle aprender.
Como caminhantes, seguimos a Ele
por uma via tão comum e simples, a via do Evangelho. Um Evangelho que não se
reduz a meras estruturas teológicas e filosóficas, mas que com sua simplicidade
e poder, adentra o ser do alegre receptivo da Palavra. Ali, no silêncio do ser,
o Evangelho, a luz da glória de Cristo, irrompe fazendo com que o si mesmo com
suas densas trevas do engano e vaidade despareçam. Começa a ser recriado o
novo, o “eu” como identidade, como alguém, alguém que agora é pleno, não em
razão das esquizofrênicas formas deste mundo, mas é pleno pelo o que ele é:
“criação de Deus em Cristo Jesus”. O Reino e sua justiça é a sua primazia existencial,
e descansa, não na ociosidade do irresponsável, mas descansa nAquele cuja
presença é real e cujo governo é ativo no mundo, no cuidado e providência. Para
este o viver é Cristo, morrer é lucro. A sua pátria está nos céus de onde ele
espera o Senhor. Como peregrino e forasteiro, caminha em sua missão de
evidenciar a realidade de Cristo no mundo em sua vida, que não mais é
determinada pelas fantasias e paixões, mas pelo o que ele simplesmente é:
Cristo nele. Não o confuso si mesmo, mas o alguém em Cristo, o ser em Cristo, o
viver em Cristo, sendo assim, cheios do fruto da justiça, fruto que vem por
meio dEle, para glória e louvor de Deus.
Que não sejamos o alienado “si
mesmo” preso nas molduras deste século, mas o “eu” nEle, em Jesus, onde está
nosso significado, razão existencial, felicidade, inefável prazer, VIDA...
NEle, o Amado!
Wellington Miguel
Servo de Deus e vosso
Nenhum comentário:
Postar um comentário